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Olds Toronado - Estranho no Ninho

 

Revolucionário para o seu tempo, o Toronado foi o primeiro carro de tração dianteira das três grandes e marcou a popularização do sistema nos EUA.


    Para muitos, Toronado (tornado) é o cavalo do Zorro. Outros, mais ligados em música, identificam o nome como sendo da guitarra Fender. Alguns, entretanto, também sabem que a designação foi utilizada pelo Oldsmobile que, após o fim do Cord 812 1937,

caracterizou-se como o primeiro carro americano de série com tração dianteira.
    O Toronado era um cupê de duas portas cuja história começou em 1962, quando David North, estilista da Olds, criou as linhas de um esportivo denominado Flame Red Car. Logo em seguida, a GM liberou verbas para que a subdivisão criasse seu próprio “personal car”, tipo de veículo que, com a denominação Riviera, já era feito pela Buick. O Riviera era concorrente do Ford Thunderbird, primeiro “personal car” americano e, com essa medida, a GM tentava tirar mais compradores do seu grande rival.
    David, que estava sob comando de Willian “Bill” Mitchell, havia planejado uma carroceria de dimensões medianas, mas teve de “esticar” o desenho para adequar a estrutura, denominada E-Body, ao projeto do novo Buick Riviera 1966, que teria tração dianteira. O uso desse sistema já vinha sendo estudado por John Beltz, engenheiro da Olds, desde 1958. Sua idéia era empregá-lo em um compacto, o F-85, mas, para reduzir custos, este chegou às linhas de montagem, em 1961, com tradicional sistema de motor dianteiro e tração traseira. Assim, o projeto de tração dianteira, denominado internamente XP-784, foi reservado a um modelo mais caro, o qual possibilitaria obter maior retorno financeiro.
    No início de 1965 foram construídos 38 protótipos do Toronado. Também foram produzidos alguns “carros-mula” com o aspecto do Oldsmobile 98 e Buick Riviera 1965, (ambos os modelos originalmente tinham tração traseira). Vale lembrar que um dos pilotos de provas selecionados foi Bobby Unser, que recebeu um Toronado de pré-série, com carroceria feita de alumínio. Unser experimentou o carro em Pike´s Peak, no Colorado, local famoso pelas provas de subida de montanha, obtendo excelentes resultados.

 

SURPREENDENDO O MERCADO

    O Toronado foi lançado em 14 de outubro de 1965 como modelo do ano seguinte. Seu nome foi escolhido após serem consideradas diversas opções, tais como Raven (corvo, em inglês), Magnum e Scirocco. A Olds disponibilizava dois padrões de acabamento: “standard” e “de luxe”. O preço inicial era de US$ 4.585. Entre os itens básicos, estavam cinto de segurança abdominal nos bancos dianteiros, carpete especial, relógio elétrico, limpador de pára-brisa de duas velocidades e luz de cortesia. O modelo mais caro vinha ainda com bancos dianteiros especiais e pára-brisa com molduras internas cromadas.  
    Em seu primeiro ano, o carro estava disponível com o motor V8 “Big Block Super Rocket”, de 425 polegadas e 7000 cm³, ou seja, com deslocamento semelhante ao de sete carros com motor 1.0. Para o Toronado ele desenvolvia 385 cv, 10 a mais que o motor 425 que equipava o Oldsmobile Starfire, o que por sua vez, era 10 cv mais potente que o 98. Um dos motivos do maior rendimento era o coletor de admissão, que foi redesenhado.
    O câmbio, desenvolvido em conjunto com a Borg Wander, era a caixa automática de três marchas Turbo-Hydramatic TH 400 heavy duty que, devidamente modificada, passou a se chamar TH 425. Outro ponto em que o Toronado inovou foi no uso de um subframe (subchassi) dianteiro. Motor, câmbio, caixa de direção e suspensão eram ancoradas em uma subestrutura parafusada na parte dianteira da carroceria, fazendo do Toronado uma espécie de carro “monobloco com chassi”.
    Para otimizar o espaço disponível, o Toronado usava suspensão dianteira por barras de torção, já utilizadas com sucesso por Packard e Chrysler desde a década de 50, mas que era uma novidade em carros da GM.  A suspensão traseira tinha eixo rígido com feixes de mola e quatro amortecedores, sendo dois horizontais e dois verticais. Os freios, a tambor nas quatro rodas, eram um dos pontos fracos do projeto.
    O interior impressionava por ter assoalho quase plano e velocímetro de tambor giratório. Pesando cerca de 2.300 kg, o Toronado 1966, segundo publicações da época, acelerava de 0 a 100 km/h em 8 segundos e atingia 217 km/h. Vale lembrar que isso não era suficiente para o piloto John Smyser, o qual montou o Terrifying Toronado, um incrível funny car bimotor. Equipado com blower, o carro tinha no total 850 polegadas e 2.400 cv.
Foram produzidas 40.963 unidades do Toronado em 1966 (contra 69 mil Ford Thunderbird e 45 mil Buick Riviera), que também ganhou prêmios importantes, como o Car Life Award Enginnering Excellece e o Car of the Year, este último em eleição realizada pela revista Motor Trend.

 

CUSTOMIZAÇÃO DE ÉPOCA

    Em 1967, além das pequenas alterações estéticas, a Olds aperfeiçoou o Toronado, passando a oferecer o carro com rádio AM/FM stereo, toca-fitas de oito pistas (cartuchão), cintos dianteiros de três pontos, freios dianteiros a disco e pneus radiais. Estes últimos ajudaram a eliminar a má imagem surgida com a dificuldade que as concessionárias tinham para alinhar e balancear o carro. Pela mesma razão, a suspensão foi revisada, passando a contar com novos amortecedores. Apesar disso, as vendas caíram: apenas 21.800 Toronado foram comercializados em 1967.
    Alheia a tudo isso, a DesiLu Studios, produtora de séries como Missão Impossível, começou a desenvolver um novo seriado em meados do mesmo ano. Denominado Mannix, o programa era estrelado pelo ator Mike Connors, o qual deveria ter um carro especial. A encomenda ficou a cargo de George Barris, que criou o Mannix Roadster, um Toronado conversível com frente e traseira redesenhadas, equipado com vários dispositivos especiais. Posteriormente, Barris concebeu uma limousine Toronado de quatro portas e, por fim, a Imperial Oil of Canada encomendou ao customizador algumas unidades reestilizadas que, com a denominação 67-X, foram sorteadas em uma promoção da empresa. 
    Dean Jeaffries, criador do Monkeemobile, também modificou o Oldsmobile para John Mecon Jr. O veículo, denominado Deano Toronado, tinha frente semelhante à do Dodge Charger e painéis de teto móveis. No ano seguinte o carro de série foi ligeiramente reestilizado na frente e na traseira. O motor passou a ter 455 polegadas (7.500 cm³), desenvolvendo 375 cv. Surgiu ainda o pacote esportivo W-34, com sistema de indução de ar para o carburador, comando de válvulas mais ‘bravo’, câmbio modificado (para mudanças mais rápidas) e escapamento com duas saídas. Graças a essas alterações, o motor W-34 desenvolvia 400 cv.
    Ainda em 1968, a American Quality Coach lançou o Jetway 707 Limusine, uma perua alongada feita a partir do Toronado. O veículo, com oito portas laterais e eixo traseiro duplo, tinha teto elevado e foi idealizada para transporte de passageiros em aeroportos. Outra alteração curiosa que usou o Toronado com base foi feita por Grant MacCoon que, como John Smyser, instalou um segundo conjunto de motor e câmbio na traseira, criando um Oldsmobile com tração nas quatro rodas de uso urbano.
    A primeira geração do Toronado foi produzida até 1970. No ano seguinte, surgiu um cupê de linhas mais retas e pesadas, que durou até 1978. A terceira geração, feita entre 1979/85, era bem menor, mas continuava a apresentar o tradicional desenho quadrático. A última versão saiu das linhas de montagem entre 1986 e 1992, quando o modelo foi substituído pelo Aurora, tentativa da GM de revitalizar a marca Oldsmobile ante aos olhos do consumidor. A medida se mostrou infrutífera, levando a empresa a eliminar sua mais antiga subdivisão em 2005. 
    Conforme os primeiros Toronado iam se tornando carros velhos, muitos deles foram parar em desmanches ou acabaram adaptados, servindo às mais variadas finalidades. Alguns, encurtados, se transformaram em veículos para limpar a neve das ruas. Outros, cortados após as portas (sem o eixo traseiro), tiveram longarinas adaptadas e foram usados para colocar e retirar hidroaviões da água. Por este motivo, os modelos 1966/70 se tornaram muito raros, razão pela qual começaram a se valorizar rapidamente.
 


TORONADO NO BRASIL

    Jay Leno, famoso por sua incrível coleção de carros, percebeu este fato e adquiriu um Toronado 1966. O carro do humorista, bastante modificado, “ganhou” toda a mecânica do Corvette C5, passando a ter tração traseira. Além disso, o motor 425 V8 do Chevrolet esportivo foi envenenado com dois turbocompressores e hoje é capaz de desenvolver 1.070 cv.
    Talvez sem conhecer o carro de Leno, o proprietário da Blower Company, Nelson Machado Simões, ao visitar o Sema Show de 2007, ficou impressionado ao se deparar com um Toronado 1969 exposto no evento. Afinal, além de sua pintura “camaleão”, o Oldsmobile ainda se destacava pelo motor original de fábrica, um V8 big block de 455 polegadas. Conhecedor da história do carro e de suas características técnicas, Nelson não pensou duas vezes ao descobrir que o carro estava à venda: adquiriu o veículo e o despachou para o Brasil.
    O veículo chegou ao país em agosto último e, pelo que se sabe até o momento, é o único Toronado existente em território nacional. Além da cor, a máquina se destaca pelas rodas cromadas aro18 Zinik, calçadas com pneus BFGoodrich G-Force T/A 235/50. O motor também foi personalizado com a adição de equipamentos como tampas de válvulas Edelbrock, cabos de vela, ignição eletrônica, módulo e distribuidor MSD. O filtro de ar e o volante, apesar do aspecto esportivo, são originais Oldsmobile.
    Nelson já expôs o seu Toronado em diversos eventos, entre eles, o ABC Expocar (ver matéria nesta edição). A grande curiosidade despertada nos visitantes já seria suficiente para o proprietário ficar orgulhoso da “barca”, mas o que realmente o surpreendeu foi a reação de donos de carros como Cadillac Fleetwood, Chevrolet Impala e até Oldsmobile 98, pois muitos deles não conseguiram reconhecer a marca nem o modelo do veículo. “Considero este fato a maior prova da raridade do Toronado, um carro que marcou época e ainda hoje chama a atenção das pessoas”, concluiu, por fim, seu satisfeito proprietario.  

 

Por Rogério Ferraresi Fotos Marcello Garcia

 

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