Oficina paulistana constrói dois T-buckets com projetos semelhantes e escolas distintas: a receita clássica dos anos 50 e a tendência surfística da década seguinte
A oficina dos irmãos Marcio e Ricardo Brandini é bem conhecida na cidade. Os carros preparados pela dupla, que competem nas provas de arrancada realizadas no Autódromo José Carlos Pace (antigo Interlagos), sempre se destacaram por seu bom desempenho.
Assim, quando os Brandini decidiram construir seu primeiro hot rod, no início de 2006, seus colaboradores já imaginavam que tipo de máquina estava por vir...
Os caras começaram seu projeto pela escolha da carroceria que, feita em fibra de vidro, daria origem a um T-bucket de estilo tradicional. Tendo isso em mente, foi a vez de pesquisar qual chassi seria mais adequado ao veículo. Optaram então por um tipo construído sob encomenda, que estava sendo desenvolvido por um amigo em comum. Assim, após receberem a estrutura metálica, feita com tubos de aço perimetrais de perfil retangular, começou a ser definido o pacote mecânico do hot. Tudo que os Brandini sabiam, até aquele momento, é que o motor teria de ser um V8.
MOTOR NOVO
Depois de quebrar a cabeça por alguns dias ambos chegaram à conclusão de que o ideal seria usar o 318 V8 da linha Dodge nacional. O bloco veio de um Charger R/T mas, antes de ir para o chassi, foi devidamente retificado, ganhando um jogo de pistões Federal Mogul. O conjunto, importado dos EUA, devido ao desenho especial das cabeças, aumentou a taxa de compressão sem que fosse necessário rebaixar os cabeçotes. Estes últimos tiveram os dutos retrabalhados e, além disso, o velho motor recebeu bronzinas Clevite, corrente de distribuição, coletor de admissão e comando de válvulas Edelbrock.
A bomba de óleo original deu lugar a uma Millodon e os tuchos hidráulicos passaram a ser da Crane, mesma marca dos balancins com regulagem. O problemático carburador DFV 446, que boa parte dos “dodgeiros” substitui pelo confiável Motorcraft bijet, cedeu espaço a um Holley quadrijet de 650 cfm. Porém, este também foi modificado: além de ter suas galerias retrabalhadas, passou a contar com extensores de cuba. Os coletores de escapamento empregados são 4x2 e contam com canos de descarga de quatro polegadas.
O câmbio também veio do Charger: trata-se de uma caixa automática Torqueflite, igualmente refeita pelos irmãos Brandini, cujos discos e retentores foram substituídos por itens novos, importados dos EUA. O cardã também é do Dodge, mas o eixo diferencial foi retirado de uma Ford Ranger. Outra pick-up, uma Chevrolet Brasil, doou o eixo rígido dianteiro, tendo suas mangas torneadas para aceitar os discos de freio do Opala, o que exigiu a montagem de flanges para parafusar as pinças do sistema. Assim, tornou-se possível empregar rodas com a mesmo tipo de furação nos dois eixos do veículo.
SOLUÇÕES ADEQUADAS
A suspensão dianteira usa um feixe de molas transversal (originário do jipe Crosley 1948) amortecedores de Fusca e, como na traseira, braços four link, com uniballs e buchas de borracha e polipropileno. No eixo diferencial foram empregados coil overs e uma barra Panhard artesanal de aço inox. A coluna e a caixa de direção são da Kombi, enquanto o radiador, feito sob encomenda, trabalha com uma ventoinha elétrica.
A caixa de câmbio ganhou um kit com alavanca Lokar, cujo comando fica no assoalho. Este componente, importado dos EUA, permite ao condutor engatar a ré apertando um botão localizado no topo da manopla. O volante é do Galaxie 500, mas o aro de buzina foi substituído pela tampa cromada do volante da pick-up Chevrolet Brasil. Como nos velhos Fordinhos, o banco único tem capa vermelha em capitonê, enquanto o painel é bem simples: tem apenas termômetro de água e manômetro de óleo, além do contato da ignição.
O pedal do acelerador é do Chevette e o do freio é do Galaxie, mas instalado de cabeça para baixo, podendo assim acionar o cilindro mestre do Jeep Willys, que fica oculto embaixo do assoalho. As rodas dianteiras são do Opala, calçadas com pneus diagonais Pirelli Tornado Alfa 5.60 x 15, originais do Fusca. As rodas traseiras são da Ranger, que contam com pneus Pirelli Centauro CT 52 Centauro 6.50 x 16, também diagonais e normalmente empregados em caminhões leves.
MONSTRO HAVAIANO
Outro carro feito pelos Brandini foi o Tiki Monster. Sua história começou quando o tatuador Marcelo Lobão, que residiu nos EUA, viu um T-Bucket rodando em Detroit, Michigan. A imagem do hot não lhe saiu da sua cabeça e, ao retornar ao Brasil, decidiu montar um hot tendo como base o tal modelo americano. Visitou varias oficinas até conhecer a empresa dos irmãos Brandini, que foi eleita para realizar o serviço, visto que a dupla já tinha experiência na construção deste tipo de carro.
A idéia de Marcelo, que também faz print strips, era aproveitar no hot o seu tiki, espécie de monstro havaiano com o qual um amigo lhe presenteara. Por este motivo o carro teria o mesmo aspecto de um T-bucket montado no início da década de 1960, mas, ao contrário da maioria dos carros que seguem esta tendência, ostentaria uma decoração surfistica. O projeto, como não poderia deixar de ser, foi batizado de Tiki Monster.
A construção começou no início de 2007. Os irmãos Brandini utilizaram como carro doador um Landau 1981, equipado com motor 302 V8 e câmbio C4 automático de três velocidades. O propulsor estava em bom estado e só foi necessário fazer uma revisão básica, a qual substituiu selos, correias, velas e exigiu a limpeza do carburador Motorcraft bijet. O mesmo ocorreu com o câmbio, que teve os discos e os retentores trocados por peças novas.
RECEITA APROVADA
Também foi necessário encurtar o cardã e “limpar” o eixo traseiro, que foi revisado e perdeu as ancoragens de molas originais. O sistema de freios, também do Landau, recebeu pastilhas, discos, lonas e burrinhos novos. Assim, com a maioria das peças e sistemas mecânicos em ordem, encomendou-se o chassi, que segue a mesma configuração básica do utilizado no T-bucket preto.
Na suspensão dianteira, o Tiki Monster também emprega o eixo rígido da pick-up Chevrolet Brasil, incluindo as mangas de eixo, devidamente torneadas para trabalhar com os discos de freio Ford. Estes, por sua vez, ganharam um flange na qual vão parafusadas as pinças do sistema. O feixe de mola transversal, como no hot preto, foi retirado de um jipe Crosley 1948. Os amortecedores são os mesmos do Fusca e os hair pins foram fornecidos pelo proprietário. Atrás, o carro utiliza coil overs e sua barra Panhard foi feita adaptando-se uma barra de coluna de direção do VW Gol.
O cilindro de freio é do Jeep Willys. Para acioná-lo, como ocorreu no hot preto, foi utilizado um pedal de embreagem de Opala invertido, o qual é embutido no assoalho. O pedal do acelerador é do Landau e a caixa de direção é da Kombi, mas a coluna recebeu modificações. O sistema de escapamento tem dois coletores 4x2 e é completado por tubulações de três polegadas. A alavanca de câmbio, que no Landau era acionada da coluna de direção, foi substituída por outra da marca Lokar.
REMO NO BALDINHO
O tanque de combustível do “Tiki Monster”, com capacidade para 40 litros, foi feito a partir de um cilindro de ar de caminhão, e é preso por cintas empregadas nos tanques de carros movidos a gás. As rodas permanecem as do Landau, mas as traseiras tiveram seu aro substituído por outros de 16 polegadas, permitindo assim a montagem de pneus diagonais Firestone Campeão Supremo 5.60 x 15 (do Fusca) e Pirelli CT52 Centauro 6.50 x 16.
Em cima deste “trem rolante” foi fixada, utilizando um jogo de coxins da pick-up F1000, outra carroceria de Ford Modelo T feita em fibra de vidro. Internamente, o túnel por onde corre o cardã é coberto por uma espécie de console, feito com remo de canoa havaiana, enquanto os bancos individuais, com encosto baixo, vieram de um Chevette 1973 e foram revestidos em vinil marrom para combinar com a cor da carroceria.
O volante empregado é do Galaxie 1975, com apliques de bambu no lugar do aro de buzina. No painel, foram instalados termômetro de água e manômetro de óleo, ambos com fundo branco. O comando do farol fica à esquerda do volante enquanto que, à direita, estão o contato da ignição e a sua respectiva lâmpada piloto. O botão comutador do facho fica no assoalho e é comandado pelo pé.
Por fim, foi colocado o scoop de alumínio em cima do radiador e Marcelo fez as print strips do carro, serviço este que, diga-se de passagem, acabou sendo repetido no hot preto dos irmão Brandini. O tiki, é claro, foi instalado no colete do radiador, ostentando com orgulho um visual tão agressivo quanto engraçado, o qual sempre chama a atenção das pessoas, em especial, das crianças. Afinal, como diria velho Rat Fink, “Mazooma! The car is very very crazy, man”!
Por Rogério Ferraresi Fotos J. Vilhora, Marcello Garcia e Ricardo Brandini



Comentários
estou montando um mais quanto a suspensão dianteira estou encontrando dificuldades, já achei eixo rígido da chevrolet brasil em vários lugares, mais não encontro completo com as mangas de eixo, vc saberia qual manga poderia usar no lugar? para disco?fiquei sabendo que os rolamentos da Brasil também e ouro de achar que o pessoal coloca da c10 dando um passe nela já ouviu falar sobre isso? obrigado e espero retorno.
parabéns mais uma vez pelos seus projetos, todos com muito capricho.