Utilizando motor Y-Block, esta pick-up apresenta um projeto mecânico cuja montagem seria viável na década de 50
O fenômeno hot rodder ganhou grande impulso nos Estados Unidos logo após a Segunda Guerra Mundial. Afinal, os jovens soldados americanos que voltavam do front, sem a possibilidade de comprar um carro novo (cuja procura, na ocasião, superava a oferta),
passaram a direcionar seus esforços à aquisição de modelos bem antigos. Estes últimos, muito mais baratos, permitiam que o proprietário gastasse algum dinheiro com a troca ou preparação do motor, criando assim híbridos bastante velozes e potentes.
A maioria dos primeiros hot rods era baseada em velhos Ford Modelo T e A, embora carros leves de outras marcas, como Chevrolet, Dodge, Willys e Plymouth, também fossem utilizados pelos entusiastas. Logo em seguida outros veículos passaram a ser convertidos, especialmente os Mercury 1949/50 e as pick-ups Ford F-1. Assim, em razão de sua importância histórica, localizamos um utilitário desse tipo, modelo 1951, para mostrá-lo aos nossos leitores, tal como fizemos com o Mercury na edição passada.
MECÂNICA ATUALIZADA
A F-1 aqui enfocada pertence ao leitor Dirlei Roma, morador da cidade de São Bernardo do Campo – (SP). “A pick-up pertencia a um colecionador de Juiz de Fora – (MG), sendo bem conhecida entre os moradores daquela região, pois chegou a ser premiada como melhor hot rod em um evento de carros antigos realizado na cidade”, explica.
Para ficar com o utilitário, Dirlei ofereceu uma réplica do Shelby Cobra. O esportivo agradou ao mineiro, possibilitando assim a realização do negócio. Segundo Dirlei, a transformação do utilitário levou mais de três anos para ser realizada, mas incluiu a substituição de quase todo o conjunto mecânico. Exemplo disso é que o velho motor da F-1, o flathead 226 “H Series”, de apenas seis cilindros em linha, deu lugar a um “moderno” 292 V8 bloco Y, “doado” por um Galaxie brasileiro.
Houve, portanto, a troca de uma unidade que desenvolvia 95 cv (SAE) a 3.300 rpm por outra de 4.785 cm3, que atinge 190 (SAE) cv a 4.400 rpm. Além disso, para propiciar mais conforto ao câmbio da F1, a caixa mecânica de três velocidades “light duty” foi substituída pelo modelo Cruise-o-Matic (automático) de três velocidades, com alavanca de acionamento na coluna de direção.
A suspensão dianteira também pertencia ao Galaxie. Em vez do velho eixo rígido com feixes de mola, a F-1 passou a contar com a suspensão independente do full size nacional, com braços triangulares superiores, braços simples inferiores, tensores diagonais, molas helicoidais, amortecedores telescópicos e barra estabilizadora.
Atrás foi adotado o eixo do Galaxie, com relação de diferencial 3,54:1, mas a suspensão por molas helicoidais foi abandonada. Em seu lugar está o sistema da própria F-1, com dois feixes de mola transversais. O sistema de direção por esferas recirculantes tem assistência hidráulica e, assim como os freios a disco e tambor, também foi herdada do Galaxie.
MR. HORSEPOWER
Para empregar o eixo traseiro do Galaxie, alargaram-se os pára-lamas traseiros em cerca de 8 cm. Outra alteração na lataria foi a instalação de um teto solar. Os estribos ganharam ripas envernizadas, do mesmo tipo de madeira utilizado na caçamba, embaixo da qual estão os novos tanques de combustível, com capacidade para 60 l cada.
“Essa solução foi muito inteligente, pois o reservatório de gasolina não fica mais nas costas do motorista (atrás do encosto do banco), eliminando o cheiro característico no interior da cabine, além de otimizar a distribuição de pesos, conferindo melhor estabilidade ao veículo”, explica Roma. O bocal dos tanques, de origem motociclística, fica embutido no pára-lama traseiro direito.
O antigo proprietário também eliminou os pára-choques, conferindo um visual mais esportivo ao velho utilitário. Na saia dianteira foram instalados dois faróis auxiliares, ao passo que, na traseira, destacam-se as duas ponteiras do sistema de escapamento. A grade do radiador foi pintada com a cor do carro e o jogo de vidros originais deu lugar a um de tonalidade esverdeada. O pára-brisa conta com o adesivo do Mr. Horsepower, pica-pau tabagista que era o símbolo da Clay Smith Cams, famoso speed shop americano dos tempos de ouro dos hot rods.
Um grupo óptico com terceira luz de freio e luzes indicadoras de direção foi montado na parte traseira da cabine. As portas ainda ostentam as maçanetas giratórias originais, mas os espelhos, fixados no quadro dos vidros, são da marca Billet. Os faróis principais tiveram as lâmpadas originais substituídas por outras mais potentes, do tipo H4.
ACABAMENTO REQUINTADO
O visual do painel não sofreu grandes mudanças, escapando de alterações pouco felizes, caso da substituição do conjunto original por itens de carros modernos. Em vez disso, a F-1 ganhou um jogo de instrumentos Cronomac de fundo branco, composto por velocímetro (graduado até 200 km/h) e conta giros (para 6.000 rpm), além de manômetro de óleo, amperímetro, voltímetro e termômetro de água. Um detalhe interessante é o adesivo da National Hot Rod Association, aplicado na tampa do porta luvas.
O volante de três raios é um Lenker de alumínio com aro de madeira. Um banco traseiro de Toyota Corolla, com capa de couro cinza, foi adaptado à F-1, combinando com o carpete de mesma cor que cobre o assoalho. Outros requintes da pick-up incluem o aparelho de ar-condicionado e o sistema de som da Piooner com CD e MP3. O DVD (com tela de sete polegadas) é da marca Starsonic, enquanto os alto-falantes triaxiais, montados na base dos bancos e nas laterais das portas, são da Bravox, garantindo boa qualidade sonora.
Quando Dirlei comprou a pick-up, o freio de mão era acionado por pedal, pois o antigo dono também o havia aproveitado do Galaxie. Porém, nosso leitor localizou, por intermédio de um amigo, a alavanca original da F-1, que foi adquirida e devidamente instalada debaixo do painel do utilitário. Completando o aspecto estético, a pick-up conta com rodas de alumínio Orion, com talas de oito e dez polegadas. Elas estão respectivamente “calçadas” com pneus Cooper Cobra de 235X15 na dianteira e BF Goodrich Radial T/A 295X15, ambos com letras brancas nas laterais.
Para dar seu toque pessoal ao utilitário, Dirlei retirou os abafadores do sistema de escapamento e uniu as duas tubulações por meio de um segmento transversal. Com isso, o confiável 292 passou a emitir um ronco surpreendente, algo muito justo, principalmente se considerarmos que a F-1 apresenta, nos dias atuais, mais do dobro da potência original. E, o melhor: tudo isso com a mesma tecnologia utilizada nos anos 50.
Por Claudia Cardinale Fotos Marcello Garcia


