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Califórnia Kid: A Curva da Morte!

Some um xerife psicótico ao volante de um Plymouth Belvedere a um rodder com sede de vingança e seu Ford V8 1934 e o resultado será um dos mais famosos filmes sobre hots da década de 70


Texto: Rogério Ferraresi
Fotos: Arquivo
Matéria originariamente publicada na revista Rod & Custom 12. Complete a sua coleção: www.lojastreetcustoms.com.br 

Clarksberg, Califórnia, 1958: uma dupla de marinheiros quase bate em um caminhão com seu carro, um Ford Custom 1951, ao trafegarem em alta velocidade. Ambos têm pressa para se apresentarem na hora certa e, passado o susto, voltam para a estrada, correndo ainda mais. Nisso começam a ser perseguidos pelo Plymouth Belvedere azul e branco modelo 1957 do xerife local, que liga a sirene da viatura para que o Ford pare imediatamente.

Como isso não ocorre, o Plymouth passa a bater com o pára-choque de impulsão na traseira do carro dos marinheiros, fazendo-os entrar em pânico. Logo em seguida o Ford sai fora da estrada, cai de um penhasco e capota seguidas vezes, matando seus dois ocupantes. É desse modo que começa California Kid, filme feito para a televisão em 1974 que, dirigido por Richard Heffon e realizado pela Universal para a rede de TV ABC, passou por diversas vezes na TVS (nome antigo do SBT) no começo dos anos 80. A história prossegue quando, tempos depois do “acidente”, Michael McCord (Martin Sheen, do filme Apocalypse Now) chega na cidade a bordo do California Kid, um Ford 1934 três janelas, preto e com flamas pintadas nas laterais.

O hot logo chama a atenção do perturbado xerife Roy Childress (Victor “Vic” Morrow, o sargento Chip Saunders da série Combate!), que persegue e pára Michael na estrada, detendo-o, injustamente, por infringir o limite de velocidade, prática arbitrária e largamente explorada pelas autoridades de Claksberg.

 

 Embora Roy não saiba, Michael é o irmão mais velho de Don McCord (o ator Joe Estevez que, curiosamente, também é o irmão de Martin na vida real), um dos marinheiros mortos no Ford Custom. O rodder chega em Clarcksberg com o intuito de investigar o “acidente”, que corretamente acredita ter sido premeditado. Roy logo desconfia de tais planos quando, ao tomar conhecimento do sobrenome do rodder, associa-o ao do homem morto na estrada.

Durante sua investigação Michael conhece Maggie (Michelle Phillips, do grupo The Mamas and the Papas), que lhe conta como o xerife perdeu a esposa e o filho (atropelados por um motorista bêbado) e nunca mais voltara a ser o mesmo. A investigação do rodder o leva ao depósito de carros apreendidos da cidade, no qual encontra o Ford dos marinheiros, ainda com as marcas do párachoque de impulsão do Plymouth do xerife.

O Custom está desmontado porque o mecânico Buzz Stanford (Nick Nolte, de 48 Horas) faz parte do esquema de corrupção da cidade, comercializando os itens dos veículos envolvidos em acidentes pelo personagem de Morrow. Certo de que o irmão foi assassinado e de que Roy tentaria fazer o mesmo consigo, Michael resolve testar os limites de seu carro na curva em que o Ford Custom saiu da pista. Lá conhece o irmão mais novo de Buzz, Lyle Stafford (Gary Morgan).

 

Logo em seguida, à noite, Lyle sai com sua namorada Sissy (Janit Baldwin) ao volante de um Mercury Monterey 1955. O rapaz ainda não tem licença para dirigir e Roy, sem saber de quem se tratava, passa a persegui-lo, dando sinal para fazê-lo parar. Porém, Lyle, com medo de ser preso, tenta fugir e, como resultado, acaba sendo forçado a sair da pista, morrendo em outro “acidente” forçado pelo psicótico xerife. Ao saber do ocorrido, Buzz se desespera e passa a ajudar Michael que, com o carro devidamente adaptado, parte para a estrada em busca do grande duelo final com o vilão do filme.

 

O California Kid começou a ser montado no início de 1973, quando sequer tinha esse nome. O construtor Pete Chaporius, da futura Pete and Jake, adquiriu um Ford V8 “three windows” 1934 por apenas US$ 250, sem páralamas e pintura, mas já com o teto rebaixado. Purista, decidiu que toda a mecânica do hot seria da mesma marca da carroceria, razão pela qual optou não só pelo motor small block 302 V8, freios e eixo traseiro da linha Ford (os dois últimos, respectivamente, dos modelos 1948 e 1936), mas até mesmo pela caixa de direção empregada nos Mustang.

O propulsor recebeu pistões TRW, tuchos e comando de válvulas Melling, coletor de admissão Offenhauser e carburador Holley Quadrijet de 650 CFM. A caixa de câmbio, obviamente da marca Ford, era uma C8 de três marchas (feita entre 1967/69, era uma evolução da “nossa” C4) e, para utilizá-la, o diferencial Ford teve seu “queijo” (alojamento da coroa e do pinhão) substituído por outro da marca Halibrand, mesma das rodas de liga leve com cubo rápido, típicas do fim dos anos 50. Como toque final Dale Caulfield realizou a pintura do carro, preta com flamas laterais que iam do amarelo ao vermelho passando por tons alaranjados. O veículo resultante chamou a atenção do jornalista Gray Baskerville e, em conjunto com o cupê amarelo de Jim Jacob (o “Jake” da Pete and Jake), foi capa da edição de novembro de 1973 da revista Rod & Custom.

 

Devido a esta matéria ambos se conheceram e formaram a parceria que dura até hoje, além de conhecerem Howie Horwitz, produtor de Batman, a mais famosa série de TV camp da década de 60. Howie, graças ao Batmóvel de George Barris, sabia da importância dos carros especiais em produções de TV e de imediato se interessou pelo Ford de Pete, pois já estava trabalhando no projeto que resultaria no filme sobre a história do rodder Michael McCord e do xerife Roy Childress. Após o construtor assinar contrato de aluguel com a Universal, o carro seguiu para o estúdio e teve no nome “California Kid” pintado em suas portas. A equipe de produção adorou o hot mas, curiosamente, quando o Roy pede para Michael abrir o capô do carro no filme, o motor que aparece é o do Ford 1932 five windows amarelo de John Milner (Paul LeMat), famoso hot rod de American Graffiti, filme de cinema feito pela Universal no ano anterior, mas dirigido por George Lucas.

É possível notar isso ao observar, durante o close, a tampa de válvulas aletada e os carburadores do carro de Milner. O Ford de Pete foi usado sem dó durante as filmagens, o que resultou em muitas “cicatrizes”. Em uma das cenas o dublê contratado para pilotar o carro, Gerry Summers, tinha de dar um cavalo de pau, mas o carro era tão estável que era difícil fazê-lo no asfalto. Assim, para dar o efeito desejado, Gerry de realizar a manobra em cima de um trecho de asfalto coberto de areia e cascalho, danificou os pneus, as rodas e a bela pintura feita por Dale Caulfield.  Além disso, um refletor caiu em cima do hot, amassando a grade do radiador, e, de tanto Martin Sheen bater as portas do carro, seus vidros acabaram quebrando. Quando as filmagens acabaram e Pete recebeu o carro todo danificado e até mesmo com pegadas nos páralamas, ficou perplexo

 

Porém, a Universal pagou por todos os prejuízos e o construtor teve condições de fazer uma reforma completa no hot, deixando-o como novo. Atualmente o Califórnia Kid é propriedade de Jerry Slover, um rodder que comprou o veículo do próprio Peter em 1986 e hoje participa com o mesmo de diversas exposições e encontros nos EUA. Por fim, fica a pergunta no ar: como foi que, ao passar na TVS, o filme “California Kid” acabou rebatizado como “Curva da Morte”?. Quem explica isso é o executivo de televisão Roberto “Magrão” Manzoni em seu livroOs Bastidores da Televisão Brasileira”: “O Silvio (Santos) comprava lotes de longas metragens americanos e eu tinha de assistir a todos eles. Frequentemente ele mudava o título, colocando um nome (...) inventado na hora (....). Na época comentei com minha equipe que, se o Silvio Santos comprasse ‘Bem Hur’, iria rebatizá-lo como ‘O Charreteiro do Rei’”. Se isso é verdade, até que “Curva da Morte” não foi um título tão ruim assim...

 


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