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American Graffiti

Talvez o mais famoso filme sobre hot rods e rock and roll, American Graffiti é um verdadeiro espelho da descompromissada juventude do iníco dos anos 60
 
Texto: Rogério Ferraresi
Fotos: Arquivo
Matéria originariamente publicada na revista Rod & Custom 19. Complete a sua coleção: www.lojastreetcustoms.com.br
 
Dirigido por George Lucas e lançado em 1973, American Graffiti (“Loucuras de Verão”) mostra uma noite na vida de um grupo de amigos em 1962. O elenco era composto pelos atores Richard Dreyfuss (Curt Henderson), Ron Howard (Steve Bolander), Paul Le Mat (John Milner), Charles Martin Smith (Terry “Sapo” Fields), Cindy Williams (Laurie), Candy Clark (Debbie), Mackenzie Phillips (Carol), Harrison Ford (Bob Falfa), Wolfman Jack (o próprio) e os integrantes da gang Pharaohs, Bo Hopkins (Joe Young), Manuel Padilla Jr (Carlos) e Beau Gentry (Ants).

 

 
 Após fazer um filme de ficção, THX 1138 (1971), Francis Ford Coppola desafiou Lucas a realizar algo mais comercial. O diretor já tinha o projeto de um documentário sobre o DJ Wolfman Jack e resolveu uni-lo a uma história sobre a época da sua própria juventude em Modesto, Califórnia, unindo os carros, as músicas e a cultura do início dos anos 60. Os personagens principais, “Sapo”, Milner e Curt, faziam alusão a três períodos distintos da vida de Lucas, que foi nerd, rodder e, por fim, universitário.

 

A produção tinha tudo para dar errado: o diretor recebeu um adiantamento para trabalhar no argumento e contratou Richard Walter para fazê-lo. Este, ao invés de escrever sobre jovens da costa oeste dos anos 60, enfocou os rodders “bad boys” da costa leste dos anos 50, inspirando-se em “exploitation films” como Hot Rods to Hell. Ao descobrir isso Lucas pagou Richard (e gastou todo o dinheiro), despediu-o e recomeçou do zero. Fez o roteiro em três dias, incluindo no filme 75 canções. Isso fez a United Artist rejeitar o texto.

A American Internacional Pictures não viu futuro no roteiro por não ter violência e conotações sexuais. Já a Universal Pictures se interessou, mas fez várias alterações, transformando o filme em uma produção de baixo orçamento. Por tal motivo o elenco era de atores desconhecidos, sendo que muitos foram testados, inclusive Mark Hamill, o futuro Luke Skywalker de Star Wars. O título de Lucas também desagradou a Universal e o filme quase se chamou “Another Slow Night in Modesto” ou “Rock Around the Block”.      


MAIS CONTRATEMPOS

Como Modesto tinha mudado muito em dez anos, a produção escolheu a cidade de San Rafael para realizar as gravações. Porém, no segundo dia de filmagens, com as câmeras já fixadas nos carros, um membro da equipe foi pego com maconha. Fatos assim causaram atritos com as autoridades locais e os trabalhos foram transferidos para outra cidade, Petaluma.

 Lucas enfrentou ainda uma reação alérgica de LeMat por ter consumido nozes e os porres de Harrison Ford (que chegou a ser preso) e Bo Hopinks. Em outra ocasião LeMat jogou Dreyfuss em uma piscina e o ator cortou a testa, sendo que, no dia seguinte, iria fazer closes do rosto. Já Martin Smith quase caiu de sua motoneta, “feito” que acabou sendo aproveitado no início do filme. Foram utilizadas 41 músicas diferentes na trilha sonora de American Graffiti, mas nenhuma de Elvis Presley: a RCA, ao contrário das outras gravadoras, não aceitou o valor oferecido pelos direitos de uso das canções de seu catálogo.

 O Mel´s Drive-In ficava em San Francisco e também foi necessário filmar nessa cidade. Na época o Mel´s já estava fechado e sofreu uma pequena reforma para aparecer em American Graffiti. Posteriormente o prédio foi demolido. Outras cidades da Califórnia que serviram como locação foram Sonoma, Richmond, Novato e Concord (nesta última realizaram-se as cenas do aeroporto).
 

DESTINO DOS CARROS

Encerradas as filmagens, os carros foram anunciados, como veículos usados comuns, no jornal San Francisco Chronicle. Apenas o Impala cupê 1958 utilizado por Howard e Martin Smith encontrou um interessado, Mike Famalette, que pagou menos US$ 1 mil no Chevy. Este foi o primeiro carro de Famalette, que teve de emprestar dez dólares do pai para fechar o negócio. Até hoje ele tem o veículo. Todos os outros ficaram “encalhados” por um bom tempo, incluindo o Chevy 1955 utilizado anteriormente no filme Two Lane Blacktop.

O One-Fifty, com motor 427 V8 e cambio Muncie M-22, foi pintado de preto para figurar em American Graffiti (era cinza no outro filme) e normalmente é confundido com seus dois “dublês”, ou seja, outro Chevy, que tinha motor 454 V8 e cambio automático TH 400, e o carro destruído na cena do racha. Lucas doou os dois Chevys sobreviventes para Henry Travers, gerente de transportes da Universal, que estava encarregado de se livrar dos veículos. Travers os vendeu, sendo que o 427 foi adquirido por Sam Crawford, que o repassou para Steve Fitch. Depois, Fitch o vendeu para seu atual proprietário, Wayne Newsome.

 

O Mercury 1951 dos Pharaoh´s foi comprado por Dave Lee Roth, do Van Halen, o qual o revendeu para Brian Setzer, do Stray Cats. Este o repassou, por preço irrisório, para um novaiorquino, mas este se matou no veículo. O Merc ficou abandonado por muito tempo, passou por uma pequena restauração e foi exposto no Sacramento Autorama de 2009. O Ford Galaxie 1961, carro patrulha que teve seu difencial arrancado, foi vendido como sucata e desapareceu. Melhor sorte teve o Thunderbird 1956 da loira misteriosa (Suzanne Somers): era vermelho e foi comprado, em 1964, por Clary e May Daily. O casal mandou pintar o T-bird de branco e, em 1972, cedeu o carro para as filmagens. Os Daily ainda são proprietários desse veículo.

YELLOW COUPE

O Ford five windows 1932 de Milner, chapas THX 138 (em alusão ao primeiro filme de Lucas), ainda hoje é lembrado circulando pelas ruas de “Modesto” ao som de Runaway (Del Shannon), Surfin' Safari (Beach Boys) e Green Onions (Booker T. & the M.G.'s). Travers foi encarregado de supervisionar a montagem do carro, que era um Ford 1932 comum antes do filme.

Os para-lamas foram substituídos por outros menores (os dianteiros eram móveis), o teto foi rebaixado e a cor vermelha deu lugar a um tom de amarelo, cuja pintura foi realizada na Orlandi´s Body Shop, em San Rafael. O carro tinha câmbio Super T-10 de quatro marchas e motor Chevrolet 327 V8 com equipamentos da Johnny Franklin´s Shop, como quatro carburadores de corpo duplo, coletor de admissão Man-A-Fre, tampas de válvulas aletadas, escapamento e rodas de aço cromadas. O estofamento, antes vermelho e branco, foi refeito em vinil preto.

LeMat não guiou o carro na cena do racha: quem estava ao volante era Travers. O interessante é que a Universal não acreditava no filme e, para amortecer possíveis prejuízos, ordenou que o carro fosse vendido por US$ 1,5 mil. Por sorte ninguém se interessou pela pechincha: o filme se tornou cult (custou US$ 775 mil e faturou US$ 118 milhões) e o stor de marketing usou o Ford em eventos promocionais. Depois, o carro foi repintado para aparecer em More American Graffiti, de 1979.

Após o lançamento do segundo e último filme da série, o carro foi a leilão, sendo arrematado por Fitch, que já tinha o Chevy 55. Atualmente o Ford de Milner é propriedade de Rick Figari, que o comprou em 1985 e restaurou-o na oficina de Roy Brizzio. Figari passou a utilizar o veículo quase que diariante, além de criar um site para o veículo, www.milnerscoupe.com .

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