
Feito com poucos recursos, filme lançado há 37 anos, sem dublês e rodado por dono de desmanche, ainda apresenta a mais fantástica perseguição de carros da história do cinema
Texto: Rogério Ferraresi
Fotos: Arquivo
Matéria originariamente publicada na revista Rod & Custom 12. Complete a sua coleção: www.lojastreetcustoms.com.br
Quando se fala em 60 Segundos (Gone in 60 Seconds), logo vem à mente, para a maioria das pessoas, o filme cheio de efeitos especiais rodado em 2000 e estrelado por Nicolas Cage, Angelina Jolie e Robert Duvall. O que poucos sabem, entretanto, é que tal obra não passa de um remake do filme original, rodado em 1974, por Henry Blight Halicki. Predestinado, “Toby” Halicki nasceu em Dunkirk, Nova Iorque, em 18 de outubro de 1942. Desde jovem demonstrou grande interesse por carros. Na adolescência, mudou-se para a Califórnia e passou a viver com os tios. Aos 17 anos abriu uma oficina de funilaria, realizando reparos em veículos sinistrados para companhias seguradoras.

Depois, começou a vender pneus e abriu um ferro velho em parceria com J C Agajanian Jr. Em pouco tempo o lucro de suas atividades comercias lhe permitiu entrar no mercado imobiliário. Em 1973 Halicki, já com um bom capital acumulado, iniciou sua carreira no cinema como ator e produtor de um filme chamado Love Me Deadly, no qual fazia o papel de um piloto de corridas.
A experiência o levou, então, a fazer um filme próprio, no qual acumularia as mesmas funções e ainda seria escritor, diretor e dublê: Gone In 60 Seconds (no Brasil, Aconteceu em 60 Segundos). A história original gira em torno de Maindrian Pace (Halicki), investigador de seguradora que, secretamente, lidera uma gangue de ladrões de carros.

No início do filme Maindrian é procurado por um traficante venezuelano (que, por sua vez, o contatou por intermédio de um argentino...), o qual faz a encomenda de 40 veículos, pelos quais pagaria a quantia de US$ 400 mil (em 1973/74!). O único problema era prazo: 48 horas. Assim, automóveis como Rolls Royce, Ferrari, De Tomaso e Manta, entre outros, são furtados sucessivamente, incluindo ainda o Ford Bronco do piloto Parnelli Jones, que faz uma participação especial no filme.

Maindrian intitula cada carro da lista com um nome de mulher e, ao Mustang Mach I 1973 amarelo, coube a alcunha “Eleanor”. O esportivo foi logo roubado, mas como não tinha seguro (o personagem tinha como regra não levar carros sem apólice), este acabou abandonado. Tal atitude desagradou Eugene, um dos integrantes do bando. Logo depois, outro membro da quadrilha rouba um Cadillac e, ao “limpá-lo”, descobre-se que ele era de um traficante, pois continha US$ 1 milhão em heroína.

Eugene se mostra disposto a ficar com a droga, mas é impedido por Maindrian, que leva o carro até um terreno deserto e o incendeia, para destruir as digitais e o entorpecente. Irritado com a atitude de Maindrian, Eugene avisa a polícia, anonimamente, que o responsável pelos roubos estava no encalço do Mustang. A polícia fica alerta e, quando Maindrian consegue pôr as mãos em um Mach I, o alarme do veículo começa a tocar, chamando a atenção de dois detetives à paisana.
Começa, então, a incrível fuga de Maindrian, que é implacavelmente perseguido pelos policiais no Mercury Montego quatro portas “1-Baker-11”, resultando na famosa sequência de destruição de 93 carros em apenas 40 minutos! O Mustang amarelo utilizado no filme, apesar de muito amassado, existe até hoje.
O carro teve todos os painéis metálicos retirados por Halicki, incluindo teto, folhas de porta e laterais traseiras, para ter toda sua estrutura reforçada, pois sem este cuidado não aguentaria os esforços exigidos. Outra alteração feita no Mach I foi a instalação de um sistema de acionamento seletivo dos freios traseiros (lado direito ou esquerdo), facilitando assim a realização de “cavalos de pau” e outros malabarismos sobre rodas.
O motor era um V8 Windsor de 351 polegadas, equipado com carburador quadrijet. Os citados reforços, feitos após o horário comercial na oficina de Halicki, vieram bem a calhar: durante as filmagens, ao ultrapassar um Cadillac na estrada, o Mustang foi “tocado” por este veículo. O carro rodou, saiu do asfalto e bateu em um poste, cena acidental que foi aproveitada e pôde ser vista no filme.
Halicki se machucou um pouco, do mesmo modo que ocorreu durante o clímax da perseguição, quando o Mach I salta por cima de dois carros acidentados, graças a um capô que serve de rampa. A peripécia machucou ainda mais Halicki, que nunca se recuperou completamente dos danos causados na sua coluna, a qual teve dez vértebras afetadas.
Apesar de todos os cuidados em relação ao Mustang, o improviso marcou a produção de Aconteceu em 60 Segundos. Ao fazer esse filme Halicki utilizou, de um modo geral, parentes e amigos no elenco, algo que pode ser notado pelo “desempenho” de alguns “atores”. As cenas em que aparecem paramédicos e bombeiros, por outro lado, eram mais convincentes, pois realmente foram feitas por tais profissionais. Aliás, até mesmo Sak Yamamoto, então prefeito de Carson, Califórnia, aparece no filme interpretando a si mesmo.
O motivo era óbvio: quase toda a verba de Halicki foi investida nos carros: o ator era dono da maioria dos veículos que apareceram em 60 Segundos, incluindo as viaturas policiais. Eles foram comprados em leilões durante 1972, ao preço médio de US$ 200 cada. Houve, inclusive, a necessidade de se alugar um enorme terreno vazio para guardar todos os carros até que o filme começasse a ser rodado.
Nunca houve um roteiro propriamente dito, e Halicki aproveitava tudo que era possível para enriquecer a história, sendo exemplo disso o trem tombado que aparece logo após os créditos iniciais, pois se tratava de um acidente real. Outro fato curioso é que, quando o Mustang entra na concessionária Cadillac e bate em vários carros, nem todos estavam ali para fazer parte do filme.
Por causa disso Halicki se viu obrigado a comprar vários dos Cadillac novos e bem amassados durante a filmagem de Aconteceu em 60 Segundos. Tudo isso lhe valeu o título de “The car crash king”, algo como “Rei das batidas de carros”.
Em 1982 Halicki reviveu Maindrian Pace no filme Junkman (também de baixo orçamento) e, no ano seguinte, o personagem apareceu, através de imagens de arquivo, em Deadline Auto Theft. Em 1988 o ator fez um motorista de Rolls Royce em Rock House e, em 1989, após casar-se com Denice Halicki (que conheceu seis anos antes), começou a filmar Gone in 60 Seconds 2.
Tal como acontecera no primeiro filme e em Junkman, Halicki continuava se recusando a usar dublês e decidiu fazer mais uma cena perigosa, que envolvia a queda de uma gigantesca caixa d’água. Quando o reservatório desmoronou, derrubou também um poste telefônico que, por sua vez, acertou Halicki, o qual veio a falecer, devido aos graves ferimentos, em 20 de agosto de 1989.
Fica, portanto, o registro dessa produção que, em 2011, 22 anos após o acidente fatal de Halicki (que foi também o maior colecionador de brinquedos do mundo), completou 37 anos de “estrada”. O mesmo se pode falar Mustang Mach I amarelo “Eleanor”, carro que, todo amassado, ainda existe e participa de eventos realizados nos EUA, muitas vezes sendo usado em apresentações de malabarismo sobre rodas.

O mais incrível, entretanto, é saber que, sem fazer uso de dublês, efeitos especiais computadorizados e dos milhões de dólares gastos pelos grandes estúdios com os mais famosos astros e estrelas, Halicki conseguiu fazer um filme infinitamente melhor que o caríssimo remake de 2000. Nada mal para algo feito por um dono de ferro velho, não é mesmo?



Comentários
Parabenizo a todos da redação e o produtor desse texto Rogério Ferraresi.